
por Karla Watkins


série DEVANEIOS
por yoko teles
Meu orgulho me deixou cansado…
Acordei cedo. Fiz as malas. Não esqueci nada. Acho. Tem tempo que não saio para passear. Os últimos dias têm sido tão distantes, que me perco entre linhas e agulhas. Escutei uma canção nova, uma vez, que fez muita coisa se movimentar. Mas desde então, nada de novo surge.
Onde estava? Me achei… Na mala. Pois bem, estava preparando os vidros de perfume. Ninguém gosta de sentir cheiro demais na roupa, principalmente depois de perceber o vidro inteiro vazio. E estava cheio no início. As roupas delicadas coloquei em cima. Para não amassarem. Minha cueca de seda importada também. Roubei há alguns anos de um namorado francês. Ele tinha um perfume tão bom. E gostava de me enroscar em seu corpo para dormir. Tem coisas que só o cheiro une…
Não posso esquecer os livros! Tem que ter espaço pelo menos para dois. Os outros vou deixar para os colegas que ficam. Às vezes eles podem usar. Nem que seja para limpar a boca, como guardanapo, sabe. Gosto de livros. Como um todos os dias, ou quase, mas não vem ao caso. Teve um que roubei de um amigo querido e nunca devolvi. Vou levá-lo, por que nunca o li. Sério! Passei anos com ele e nunca o li. Acho que é medo. Se acabar, talvez eu tenha que devolver… Aliás, parei de sair depois dele. Do amigo, não do livro. O livro parece ser legal. Vou tentar experimentá-lo mais tarde.
Levo na bagagem de mão maquiagem, pra sempre ficar bonita. Tive um namorado uma vez, que dizia que a cor cereja fica muito vibrante nos meus lábios que, aliás, são carnudos. Bem… Não preciso dizer isso… Er… Nesta necessèrie também carrego um pequeno bloco de notas. Não é muito grande e só dá pra escrever frases de duas palavras. Tem uma lâmpada na capa e algumas páginas rabiscadas. Nunca se sabe o que pode surgir no meio do caminho, não é verdade?
Vou deixar todos os espelhos. Sei lá, mamãe diz que sou muito orgulhosa. Quero deixar isso aqui. Já estou cansada de agir tão… Tão… Como é que se diz?… Deliberadamente! É, deliberadamente… Adoro mente em palavras. Deixam as frases mais… Inteligentes. É isso. E eu adoro me sentir inteligente. Aliás, foi como tudo começou… De forma inteligente, pragmática, intuitiva! … Mas…
“Sara, querida, vamos. Já está na hora de voltar para o repouso.”
“Já vou.”
“Só estava arrumando a mala.”
“Sim, minha querida. A mala, sim. Deixa para depois, ok? Está na hora dos seus remédios.”
“Não gosto de remédios.”
“Sim, querida. Mas é para evitar… você sabe, não é?”
“Eu sei, eu sei… Mas depois vou poder visitar a mamãe na chácara?”
“Poderá sim, querida. Depois do remédio, ok? “
por anna k.
Cada dia descubro quão estúpido é o ser humano. Por que essa espécie imunda habita esse planeta? Imunda! Lembrei da palavra imundície e de quando passei a pronunciá-la numa brincadeira com um amigo. I M U N D Í C I E! Gostávamos do ‘IE’. Mas não era essa a questão. Falava na podridão do homem, esse bicho escroto. Escroto rima com arroto! Coca-cola, pamonha, pepino, sal de eno… Mal estar. Nunca quebrei a casa, isso significa que sou muito racional. Ou controlo meus rompantes e contenho a ira, ou, sou mesmo pobre a ponto de temer o dano capitalista. Detesto o capitalismo, esse gladiador que devora a individualidade e uniformiza corpos. Macacões em marcha! Soldados, cabos, sargentos, coronéis, capitães, majores, tenentes… Qual sua posição na escala do sistema? Lustre as botas! Aperte o cinto! Penteie o cabelo! Corte o cabelo! Gumex no cabelo! Olho aberto! Coluna ereta. Será punido se houver ereção! 1, 2, 3, 4! 4, 3, 2, 1! Gel de arnica para massagear as pernas. Playboy para bater punheta. Cerveja pra acariciar a goela. Silêncio! O mundo dorme. Quem me ouve? Psiu! Vontade de cafuné numa rede a beira mar. Silêncio! É proibido querer azul nesse lugar amarelo. Mentira, não existe silêncio. Existe algazarra de formiguinhas passeando nos meus poros. E se eu arrancasse meus olhos?
por anna k.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez… Quarenta e sete, quarenta e oito, quarenta e nove… Setenta e dois, setenta e três… Cento e oitenta e quatro! Ufa! Esses são os passos necessários da minha casa até a padaria. Isso num ritmo apressado de passos curtos. 5 + 7 = 12 + 3 = 15 + 8 = 23, 2 + 3 = 5. 1 + 4 = 5 + 9 = 14 + 6 = 20, 2 + 0 = 2. Somo placa de carros involuntariamente, faz tempo. Começou como mania e criou pernas. Números, números! Não vou dormir sem um pouco de Sudoku. Faz bem. Bem faz. Faz bem. Bem faz. Fez, foz! Fafá de Belém! Risada boa. Risada idiota. Parece de alguém que conheci um dia. No começo até faz graça, depois, cansa. Ah, lembrei de uma coisa. Por favor, pontue a frase MARIA QUANDO TOMA CAFÉ QUENTE SUA MÃE DIZ ELA QUERO CAFÉ FRIO
Cãibra no pé direito. Cãibra ou dormência? Sei lá, algo estranho e constante. Digo constante porque todo dia, na mesma hora isso acontece. Gosto do som do teclado, é bom comandar alguma coisa. Letras! Formas! Queria tatuar letras. Me perco em opções de palavras. Um dia descubro. De repente a revelação surge em sonho. De repente… Estalo!
Por Anna K.
Calor! Tiro o casaco. Frio! Ponho o casaco. Melhor arregaçar as mangas? Coceira no rosto e pescoço. Piolhos só habitam a infância? Não tive a intenção de rimar água com anágua. Esse computador cansa minha visão desde que meu óculos foi quebrado. Mentira. Já cansava antes. Cortei as unhas. Sempre as corto. Nunca as roí. Perfeito do indicativo. O rato roeu a roupa do rei de Roma. Cala a boca porra! A rainha com raiva roeu o resto. Já falei para parar! A rainha é uma ratazana? O problema dos ratos são sempre os rabos. Argh, que nojo! Se não fossem os rabos. E o problema das popozudas? Bundas? Prefiro ratos a popozudas glamurosas poderosas rainhas do funk. Outra vez rainha, outra vez. Outra vez é música que o rei Roberto gravou. Aquela: você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços, o que nunca esqueci… Rei-Roberto-rato-rainha… Rinha! Peraê, rinha é briga de galo e não de galinha.
Por Fábio Costaprado
Mordo o pão. Aspirador. Apago o erro. Aspirador. Aponto o lápis. Aspirador. O porta-copos, em sua irritante existência, exibe uma mancha-círculo. Gosto de bebidas geladas, número par de cubos de gelo: no mínimo 4 e no máximo 4. Todos os porta-copos, para meu conforto, exibem a tal mancha. Tenho 4 porta-copos e 4 copos, logicamente. Moro no 4º andar porque sempre foi assim. Sempre haverá de ser. A imprevisibilidade do computador me deixa insano. D, salvo, i, salvo, g, salvo, i, salvo, t, salvo, o, salvo, espaço, salvo, a, salvo, s, salvo, s, salvo, i, salvo, m, salvo. Canso.
Dia 5 próximo é aniversário de minha mãe. Me recuso a parabenizar alguém que tenha nascido nessa data-aberração! O número 5, só de mencioná-lo, faz pipocar manchas violeta entre meus dedos. Para meu alívio, são 4 os espaços entre meus dedos. Não ligarei para ela. A própria sempre liga. Ela sabe o quanto dói que ela ligue no dia 5 (pipocou), e mesmo assim o faz. Quando o próximo dia 5 insistir em aparecer, e ele há de vir, o rasgarei em quatro partes. Aspirador.
Minha única tia, que, menos mal, nasceu dia 14, teve 4 filhos, dois pares de gêmeos siameses que viveram 4 meses e 4 anos respectivamente. Eu me sentia bem ao lado deles porque eu era só um. Também me orgulhava de ter sido um elo entre os 4. Como se eu fosse os olhos e o cérebro de nosso próprio polvo. Eu também não queria me separar de meus irmãos, mas fui criado pela vó. Meus irmãos eram todos iguais e eu era diferente. Eles continuam iguais: todos pais e mães, casados e infelizes. Quando meu alarme toca às 4:04:04 da madrugada, eu sou feliz: acordo sem abrir os olhos e penso em meus primos. Quando acordo pela manhã, parece que é dia 5 (não pipocou agora…), pois minha mãe sempre liga pra saber como dormi. Bem, mãe. Ahã. Já. Tudo bem. Tá. Tudo bem. Olha, tenho que desligar. Depois me liga, tá? Tá bom! Beijo. Te amo também.
Sua mãe, com sua natureza absolutamente protetora, o convenceu de que escovar os dentes o mais forte possível, além de convencê-lo de que a maior quantidade possível de pasta de dente – do tipo mais forte – garantiriam dentes saudáveis. Em seu desesperado impulso materno, exigiu dele que aprendesse três línguas estrangeiras até os 8. Ela queria que ele fosse independente. Ele aprendeu a linguagem dos sinais e passou a ficar mais e mais calado quando chegou aos 9 anos de vida. Ela gritava para que ele falasse.
Aos 10 ele foi diagnosticado com ultra-sensibilidade da gengiva. Nunca mais ele poderia saborear suas amadas sobremesas. Chocolate se tornara algo doloroso.
Aos 15 sua língua caiu. Se comunicava piscando os olhos porque as mãos já haviam se atrofiado dois anos antes.
Aos 15 e meio já havia perdido 90% da audição. Era um alívio.
Se chegasse aos 16, olharia para sua mãe com todos os nervos contraídos e 10% da visão e lhe comunicaria muitas coisas que sua maturidade inesperada o ensinara. Se chegasse aos 18 seria um bolo de carne endurecida com vãos entre os poros pelos quais saíam e entravam vidro, ar e metal, ininterruptadamente.
Sua mãe nunca foi capaz de perdoá-lo, mesmo quando o viu metade podre, metade morto, lutando para manter o canudo entre os lábios. Aos 48, incrédula e feliz sobre o azulejo frio, constatou que estava grávida. Desta vez, pensou, 2 línguas estrangeiras e pouca pasta de dente.
Fábio Costaprado
projeto 5 sentidos: tato por L
NA PELE
As vezes, grandes coisas acontecem que encadeiam pequenas coisas em nossas vidas. O contrário também pode acontecer, de pequenos gestos mudarem o mundo. Sei disso. Após ficar comprovado que a gripe suína era, na verdade, um atentado terrorista, outras seis pandemias de grupos radicais religiosos, políticos e ambientais devastaram a humanidade. Eu ainda não era nascido, mas até hoje existem focos de febres e gripes esterilizantes e outras doenças que se desenvolveram a partir dos vírus modificados. Isso mudou a forma do homem ver o mundo. Uns dizem até que foi a tecnologia, e não a doença, mas eu não sei o que dizer.
Quando eu era menino, peguei a Febre Ocular. Por sorte já tinham desenvolvido um tratamento eficiente. Não houve desenvolvimentos de tumores nos vasos sanguíneos dos globos oculares, mas fiquei quase cego. Não dá pra perceber com as lentes, e fiz cirurgia corretora também. O engraçado é como nos assustamos, como temos medo da morte. Acho que é porque matamos demais. Nunca vi nem nunca verei, a não ser por processos de clonagem, uma baleia azul, um rinoceronte ou uma onça pintada. Talvez o que tenha mudado a visão do homem foi seu distanciamento do mundo real. Mas é filosófico demais para que eu possa afirmar.
Nós ficamos com muito medo desses vírus, e as pandemias, a neurose e a tecnologia formaram um meio de vida do qual nunca antes eu havia pensado em questionar. Para deixar registrado, explico que só saímos de casa em veículos especiais, evitamos o ar livre e o convívio direto com os outros. Mesmo com familiares. É nossa cultura. Agora que conseguimos, novamente, chegar a 660 milhões de habitantes no mundo. Quando tudo começou eram 600 bilhões, dizem. Minha mãe, por exemplo, nunca tocou em mim. Existem pessoas que sentem asco do toque humano.
Não fico traumatizado com isso. A maioria dos meus amigos da rede social escolar também nunca foram tocados diretamente por mãos humanas, e os que foram, em grande parte, foi acidentalmente. Babás eletrônicas fazem um bom trabalho. Melhor que o da genitora, dizem. Conviver diretamente com alguém é muito mal visto, e não conheço um caso próximo na verdade. A rede mundial de tecnologias suprem todas as funções que necessitamos. Precisamos apenas, digamos assim, dar manutenção ao sistema. Não é com andróides igual a humanos nem nada disso. Isso é pouco prático. Guardamos para os parques temáticos. Mas o fato é que o mundo hoje não tem mais guerras, soube que não muita escassez de recurso, acho que a natureza precisava mesmo de férias da gente.
Mas então aconteceu uma coisa estranha. Cometi uma infração grave, mas não fui pego e nem serei punido, porque quase ninguém me viu. Acontece que meu portão da garagem falhou, e quando desci do carro, um pequeno dado de oito faces, lembrança de meus pais, rolou para fora, para a rua. Acabei me embrenhando por debaixo do portão. Fui para a rua. O sol bateu na minha face. Senti a brisa fria nos meus braços. Vi folhas balançarem em galhos de árvores e robôs jardineiros espalhados pela avenida. Primeiro fiquei com muito medo, mas a sensação era tão boa que fiquei um pouco mais de tempo. Me assustei realmente quando a polícia passou nos balões de segurança, voando em alta velocidade, escaneando a rua. Pensei que fosse ser pego ali mesmo, mas me ignoraram.
Na verdade os policiais estavam atrás de uma procurada. Uma menina dessas que resolve virar punk e ir contra o sistema. É nosso maior problema de segurança hoje. É pouca coisa, dizem. Mas há quem arrisque dizer que isso só encobre problemas maiores. Nunca tive a mente inventiva para conspirações, mas não duvido. Esses punks, eles saem nas ruas e invadem casas e abraçam as pessoas, e as amarram, e sopram no nariz delas. Acham graça. São terroristas. Todo mundo tem muito medo. Dizem que são contaminados. Voltei para minha garagem sentindo um misto de aflição e um estranho alívio, como se voltasse a ser alguém que nunca fui. Mas dei de cara com ela, a pessoa que estava sendo procurada pela polícia. Fiquei paralisado. A moça também. Estava assustada e não sabia o que dizer. Ficamos nos olhando por longos minutos que pareceram uma eternidade.
Nunca pude imaginar que algo assim aconteceria comigo. No momento seguinte corri para o multimídia, para avisar a polícia, mas ela chegou primeiro e me barrou. Estávamos com o corpo próximo. Comecei a ficar nervoso. Ela pediu que eu não fizesse isso, que não ligasse. Disse que precisava, ou seríamos os dois enquadrados na lei do toque e na invasão irregular de espaço público, e eu ainda seria cúmplice de uma terrorista. Ela disse que existe muito mais coisa no mundo que proibições neuróticas. Não cedi. Claro que não ia dar ouvidos. Então ela me beijou. Foi a primeira vez que meus lábios tocaram os lábios de alguém. Acho que ninguém da minha família fez isso antes. Senti seus braços e suas costas. Levemente quente, levemente fria, meio suada, lisa, negra, macia, com tatuagens em relevo e uns arranhões aqui e ali. Perdi o controle de minha respiração. Ela riu feliz. Nunca tinha sentido nada assim antes. Me derreti nos braços dela. Ela me beijou novamente, e então me disse que isso se chamava beijo antigamente.
Ela me beijou. Dá pra acreditar nisso? Depois me guiou para a cama, e se deitou comigo, e me mostrou coisas que eu nunca tinha ouvido falar. Era como uma amante e uma irmã mais velha ao mesmo tempo. Toquei aquele corpo, senti os fluidos me molharem, me sentia tão impetuoso que me esqueci dos riscos de contaminação. Senti com várias partes do meu corpo, várias partes do corpo da moça, que eu nem sabia o nome. Trocamos amor. Assim, desconhecidos, sem saber nossos nomes. Fui levado por uma quase inocência, ou talvez, no fundo, guarde uma índole transgressora. Não sei. Não sei se me tocar a mão de alguém pode ser considerado realmente transgressor, como dizem. Se encarar, encostar os lábios. O que é isso? Porque é tão simples e tão bom. É como na teoria do caos, onde o caótico lança padrões, o pequeno transforma o grande, e o grande transforma o pequeno. Ela sumiu no dia seguinte. Mas tive a sensação de que sua pele continuava na minha. A lembrança daquele tato. Tato. Meu deus, essa palavra é tão linda, tão pura, tão simples. Elça diz o que é por si só. Tocar as costas damão com as costas da mão, passear por sobre as costas, alisar os cabelos… Ta-to. Os elétrons, o gozo, o calor, o suor, pareciam impregnados em mim nas próximas semanas. Minha cama agonizava a presença de um fantasma feminino. Não trocava de roupa, para não perder seu cheiro, e ficava revendo as câmeras de segurança, para me lembrar do seu rosto, e apalpava com a ponta do indicador a tela do multimídia. Minha vida se transformou completamente. E depois um pequeno bebê apareceu em minha porta. Essa é sua história, minha filha, e a história da nossa neta.
Descanse papai. O senhor não está bem. Não pode ficar falando. Está tarde também. O enfermeiro vai chegar logo. Precisamos ir. Amanhã volto no mesmo horário, ok?
Poxa, amor, seu pai fala como se viesse do futuro.
Ai, Anton, essa história é a única que eu conheço sobre minha vida. Vamos nos apressar para pegar o trem. Que dia é hoje mesmo?
Hoje é 15 de outubro de 1982.
Porque você falou o ano?
Não sei. Acho que para ter certeza. O velho Carl foi tão convincente…
Luiz Calcagno
obs: cortometraje Aprop. Dirigido por Aitor Echeverría en 2007 y producido por La Movie.
Mordiscou um pedaço de chocolate enquanto tentava se concentrar naquele texto. ‘Quem teria inventado o chocolate?’ pensava. O sabor impregnava-lhe a boca. Passava a língua pelos dentes, gengiva e lábios e a sensação de alegria permanecia. Não era chocólatra, definitivamente não era. Poderia ficar, numa boa, sem comer ao menos um bombom. O sal lhe apetecia mais, mas naquele momento o chocolate transformava suas idéias e a influenciava a escrever com determinação aquele tal texto que precisava entregar. E então, pensava num chocolate gigante com olhos e boca a correr em sua direção, tipo esses bonecos de shopping que agradam ou assustam crianças.
Novamente a boca a morder. Focava sua mente na imagem de uma boca de batom vermelho, lembrou de ‘Blow Up’! Ou seria ‘Close-Up?’. A pasta de dente?
Tudo girava na cabeça como a língua a percorrer o céu da boca. Já não sabia o que queria escrever. Só sabia da boca que precisava ditar as palavras do texto que não seria mais escrito.
Anna Karla Lacerda
Para ouvir de olhos fechados e com fones de ouvido
projeto 5 sentidos: visão por K
* O olhar do ‘estrangeiro’.
Karla Watkins
projeto 5 sentidos: visão por L
Outros olhos
Num dia mais feliz que outros, quando Artur acordou pela manhã com a movimentação do Central Park, não viu mais o que chamamos de mundo. Seus olhos haviam sido trocados. A textura era a mesma e o formato redondo também. A cor, por sua vez, tinha tonalidades bem diferentes das comuns para quem repara de fora, e ele não captava mais espectros luminosos tal qual os humanos captam. Sua retina filtrava agora elétrons. Sua visão era energia pura e isso o deixava levemente alucinado. A Lua era um espetáculo a parte, e o sol, visível, era bem diferente da bola de fogo ofuscante que nos ilumina. Via muito mais que nosso cérebro concebe se muito evoluído.
Cores não eram mais o que eram. Existiam de um modo muito mais relativo do que o captado por sentidos comuns. Artur levantou-se assustado. Tudo era repleto de uma pseudo-luminosidade estranha e variante de fundo negro e bordas esbranquiçadas. Eram desenhos estranhamente precisos que se alteravam de acordo com o seu humor e com o que passava perto do objeto observado. Um vaso agora era um vaso e seu conteúdo. Se os Deuses tivessem olhos e pudessem ver o mundo, talvez fosse assim que os visse. O mundo é um desenho de relâmpagos, uma tela de elétrons girando em torno de seus núcleos emitindo energia para permear como uma ventania alquímica toda a matéria. E ele via além da matéria.
Era agosto. O jovem saiu da cama cambaleante, tateando a casa, ainda desacostumado com aquelas luzes que se esticavam até ele, que uniam o plano da existência. Gotículas de água caíam na janela no princípio de uma curta chuva. Ele ouviu o barulho, tal qual você leitor escuta quando chove em sua janela, mas ao olhar, viu uma porção de borboletas e fadas que se uniam ao vidro dançando. Tudo era tão vivo… Seus conceitos sofriam uma bizarra mutação com o poder de seus novos olhos. A TV era uma estranha esfera luminosa, a lâmpada não servia para nada, as pálpebras apenas umedeciam a retina, mas pareciam também invisíveis. Não havia escuridão e ele se sentiu subitamente feliz.
O coração do homem disparou. Ele tentou escrever, mas as letras eram resquícios elétricos instáveis demais para serem percebidos. Seus símbolos agora mudavam. Largou o caderno e levantou-se enfraquecido pelo novo e subseqüente estarrecimento. Os pelos do braço exalavam impulsos elétricos. Tomado de espanto tirou a mão que o apoiava na escrivaninha. A outra se segurou na parede com medo do desequilíbrio. Seu coração pulsava tão forte que ele via explosões saltarem de seu peito e ondularem por todo o corpo e sala. Deu então um passo como uma criança que aprendia a caminhar, e outro, e mais outro, sem se apoiar mais em nada, sob os olhos orgulhosos da mãe natureza. Tudo é vivo, tudo está unido, repetiu para si mesmo.
Um carro buzinou na porta. A atmosfera tremelicou de um jeito engraçado. O calor era apenas o grau de agitação das moléculas percebido diretamente naquele ano de 1975. O som era uma vibrante vista pelos olhos e reproduzida pelos ouvidos. Com o ganho de visão tudo mudou de gosto e tato. Ver a parede no chão nos pés no corpo no ar no pássaro no carro no avião na borboleta no cão no latido na torneira era regozijante.
Um sentido influenciava diretamente em outro de um modo que ele nunca havia percebido. Tinha o tato como o meu e o paladar como o seu, a audição como a de quem leu em voz alta esse texto, mas com a visão elétrica da realidade a concepção reconfigurava-se. Às vezes é preciso ouvir um “re” para reconhecer um “mi”, e Artur dançou por entre as árvores que se moviam com ele, e correu como um cão atrás dos carros enquanto o viam como louco. Como um louco, ele pensou feliz. Então essa é a energia que os loucos sentem sem saber quando são observados. Tudo isso porque vêem o mundo de um ponto de vista diferente… Então um relâmpago ao longe iluminou até seus nervos ópticos. Podia perceber o sangue que corria em suas veias. Era a percepção da percepção da percepção. Tudo era fluido e respirante. Tudo era ar e pedra, como mágica e sinestesia.
Sua garota sorriu. Era Julia, como nos Beatles, e era agora uma fada radiante. Seus dentes brilhavam em um contorno de cores invertidas e sua energia era boa. Ele podia ver as curvas de seu corpo por sobre o vestido. Ela não carecia de maquiagem ou adorno para expressar a beleza do ser vivente. Não era sexual, mas apenas corpóreo. Era a matéria da matéria. E ele a amou ainda mais e mais por isso. Era um homem novo. Era seu segredo seu modo de ver o mundo. Talvez as pessoas não estejam preparadas para isso, concluiu. Olhou para a janela do ônibus. A paisagem mudava. Seus amigos cantavam e tocavam violão a caminho das florestas do Texas. Sua menina cochilava sem saber que em seu ventre adormecia uma outra vida. Ele já sabia. Tudo é vivo, tudo é uno, ele repetiu feliz quando ela se virou resmungando… E na verdade tudo era apenas como se um de nós, com esses olhos ordinários que Deus nos dotou, observássemos uma flor. Então ele abriu os olhos e adormeceu…
Luiz Calcagno
Bethoven - Fur Elise * Cliquem para ouvir!
Silêncio por favor! Um homem deseja expressar um crime perante essa corte. Com a palavra Ludwig van Bethoven:
“Ó homens que me tendes em conta de rancoroso, insociável e misantropo, como vos enganais. Não conheceis as secretas razões que me forçam a parecer deste modo. Meu coração e meu ânimo sentiam-se desde a infância inclinados para o terno sentimento de carinho e sempre estive disposto a realizar generosas acções; porém considerai que, de seis anos a esta parte, vivo sujeito a triste enfermidade, agravada pela ignorância dos médicos.”
Silêncio, silêncio! Ordem!
Esse homem é um menino que quisera ser Van Gogh- alguém que se despontará no próximo século e cortará a própria orelha-
para justificar essa crueldade chamada surdez. Um gênio que passa a ouvir o que ninguém mais, aqui presente, é capaz: música no silêncio! Como explicar as sinfonias que ele ainda há de compor mesmo ciente não poder desfrutar de sua própria obra. Que desígnio!
Aos 46 anos ele perderá por completo a audição, mas mesmo assim saberá ser notável e imortal. Deixará por testemunho:
“Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou!”
* aspas de 6 de outubro de 1802
Anna Karla Lacerda
projeto 5 sentidos: visão por AK
Preciso marcar oftalmologista, me lembra? Tem algo estranho. Sei que aparentemente está normal, sem vermelhidão ou pupila dilatada, mas estou sem foco, entende? Não sei se minha crise existencial influencia, mas não consigo olhar numa só direção.
Ah, quando me vejo no espelho a imagem aumenta e chego a me sentir como um gigante. Ta certo que quando digo gigante é mais no poder. E quando tento ler algo que não tenho tanto interesse as letras diminuem de repente, nem com lupa identifico as palavras.
E pra todos os lados que olho vejo aquela gostosa da casa em frente. Ela surge principalmente se estou sozinho na cama ou no chuveiro. Será que é um sinal? Mas sinal de trânsito é o mais foda! Descobri que estou daltônico, ou algo derivado disso, porque não sei identificar as cores, até sei, mas parece que para mim é tudo o inverso. A sensação é que estou do avesso porque desandei a pentear a franja toda pra frente, colocar blusas ao contrário, dar uns passinhos para trás tipo o Michael Jackson, lembra dele? Um esquisitão que era negro e virou branco e desconfio que nem tem mais cor.
Espere um momento que vou lavar o rosto pra ver se melhora. Se preferir pode ir chamando o elevador.
(5 minutos depois)
Vamos embora logo porque tem um cara estranho lavando os olhos na privada. Não enxerguei direito, mas algo me diz que ele é a minha cara.
Anna Karla Lacerda
• curta-metragem encenado por Fábio Costaprado, realizado em NY (2005)
projeto 5 sentidos: visão por F
Ontem mesmo me disseram que “a verdadeira jornada está em”. Não. Me disseram em inglês. “A viagem real”, acho. Como é essa frase? Eu sei que foi de Marcel Camus; e eu não sei muito sobre ele, a não ser que era francês. Mas é a frase que importa. Começa com “a verdadeira” ou “a real” e ao invés de dizer que essa viagem, ou jornada, é algo, prefiro dizer que consiste em algo. Então acho que poderia ser assim: “A verdadeira viagem ou a viagem verdadeira ou a jornada real consiste em algo”. O fim da frase é mais ou menos assim: “algo de paisagem, algo de olhos”. Marcel Camus, filósofo francês, se é que tenha sido um ou outro, disse que a verdadeira viagem consiste em. Na verdade, “não” consiste em ver novas paisagens. Se ele disse é porque pensou ou viveu, ou viu, ou escutou alguém dizer e escreveu e tomou pra si. Esses franceses, se é que são franceses…arrogantes! Mas nem conheço de quem falo. Arrogantemente escrevo o que ouvi. Não importam as novas paisagens, ou as paisagens, mesmo velhas, não importam. Descoberta! Tinha algo de descoberta no que ele disse! Assim: “O caminho, que é melhor do que dizer “a viagem”, de descobertas não consiste em procurar novas paisagens, mas sim em olhar com novos olhos”. Não me olhem assim, com esses novos olhos: foi o Marcel quem disse! Mas não o Camus, que era diretor, mas sim o Proust, que parece ter sido bem mais francês e tinha um bigode.
Fabio Costaprado
projeto 5 sentidos: visão por AK

O Cão Andaluz anda contra a luz
Fica cego para ver o invisível
E o invisível está cá dentro
Anna Karla Lacerda
projeto 5 sentidos: tato por AK

* Arte-ilustração da vida do artista Mário Jr.
http://www.fotolog.com/mario_quemario









